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Boletim informativo

Boletim informativo
 

TESE DOUTOURADO PORTO

TESE DOUTOURADO PORTO

Tese de doutoramento apresentada à Faculdade de Medicina do Porto- OUTUBRO DE 1924 ARTIGO COMPLETO EM PDF


— de Jaime Vasconcelos — 204, Rua José Falcão, 206 PORTO-

A  AUTO-HEMOTERAPIA NAS DERMATOSES
 
 

FACULDADE DE MEDICINA DO PORTO

DIRECTOR
br. José Alfredo Mendes de Magalhães
SECRETÁRIO
br. Hernâni Bastos Monteiro
CORPO DOCENTE
Professores Ordinários
Anatomia descritiva Dr. Joaquim Alberto Pires de Lima
Histologia e Embriologia ... Dr. Abel de Lima Salazar
Fisiologia geral e especial . . . Vaga
Farmacologia Vaga
Patologia geral Dr. Alberto Pereira Pinto de Aguiar
Anatomia Patológica Dr. António Joaquim de Sousa Júnior
Bacteriologia e Clínica das doenças infecciosas Dr. Carlos Faria Moreira Ramalhão
Higiene Dr. João Lopes da Silva Martins Júnior
Medicina Legal Dr. Manuel Lourenço Gomes
Anatomia Cirúrgica Dr. Hernâni Bastos Monteiro
Patologia Cirúrgica Dr. Carlos Alberto de Lima
Clínica Cirúrgica Dr. Álvaro Teixeira Bastos
Patologia Médica Dr. Alfredo da Rocha Pereira
Clinica Médica Dr. Tiago Augusto de Almeida
Terapêutica Geral Dr. José Alfredo Mendes de Magalhães
Clínica obstétrica Dr. Manuel António de Morais Frias
Parasitologia e Clínica das doenças parasitárias Vaga
Dermatologia e Sifiligrafia ... Dr. Luís de Freitas Viegas
Psiquiatria Dr. António de Sousa Magalhães Lemos
Pediatria Dr. António de Almeida Garrett
Professores Jubilados
Dr. Pedro Augusto Bias Dr. Augusto Henrique de Almeida Brandão

 

       Aos meus condiscípulos
EM ESPECIAL:
Dr. Dosé Frazão Nazareth
Dr.Armando bucas
Dr.Virgílio Marques Guedes
Dr.Paulo Gonçalves
Dr.Carlos Frias.
Aos meus amigos
Dr. Dosé Ribeiro Braga Dr. Manuel Gomes Adelino de Souza Soares.

Ao meu ilustre Presidente de Tese
Ex.mo 5nr. Prof. Dr. buís Viegas
Gratidão e homenagem do aluno reconhecida.

 

INTRODUÇÃO
             Após um curso fatigante como o de Medicina, principalmente nos dois últimos anos em que o aluno, necessitando de tempo para o estudo das clínicas, objectivo principal da vida prática, se vê sobrecarregado com uma avalanche de especialidades, a preocupação constante do novo clínico, é sem dúvida, a sua tese de doutoramento.
Foi, pretendendo encurtar a tarefa final do curso, que, ao encetarmos os nossos trabalhos escolares do transacto ano lectivo, nos lembramos de escolher o assunto da nossa tese de doutoramento.
Com este fim, achamos que seria interessante efectuar um estudo sobre a "Cura da sífilis pré--humoral» e, nesta conformidade, iniciamos uns trabalhos preliminares, mas infelizmente tivemos que desistir, não só pela dificuldade em obter casos apropriados, mas também porque os trabalhos escolares não nos deixavam tempo suficiente para
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dedicar a nossa actividade às investigações laboratoriais que seriam necessárias.
Abandonando este assunto pelas razões expostas e em breve tendo conhecimento de curas brilhantes obtidas na furunculose por auto-hemote-rapia, resolvemo-nos a escrever algumas considerações sobre este moderno processo terapêutico de indicações tão vastas, motivo porque o tornamos restrito às dermatoses.
Inexperientes neste género de trabalhos, privados de quaisquer livros sobre o assunto, porque os não há, lançamo-nos na investigação dos registos clínicos espalhados pelas revistas da especialidade e conseguimos, por fim, apresentar este modesto estudo que não tem pretenções a explicar o tão obscuro e debatido problema do mecanismo dos métodos hemoterápicos, mas sim, num trabalho de síntese, mostrar o estado actual da resolução do problema e muito principalmente as suas vantagens e as suas aplicações práticas.
Era nosso intento desde começo documentar este trabalho com numerosas observações exclusivamente pessoais, porque só assim poderia haver método e uniformidade na técnica, seriação da dosagem, intervalos das aplicações, apreciação dos resultados etc., e desta maneira no fim se obteria uma estatística perfeitamente regular de conclusões práticas reais que pudesse ser confrontada com as publicadas pelos autores extrangeiros.
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Numerosos obstáculos impediram-nos, infelizmente, de poder realizar o trabalho como acima o delineamos: Em primeiro logar a relutância e o receio, por parte dos doentes, em frente dum processo que não conhecem nem ouviram falar, que se lhes afigura de enormes perigos e que até acham disparatado, sobretudo quando empregado nas dermatoses que eles entendem só se poderem curar com aplicações externas, como pomadas, pastas, pós, etc. Esta dificuldade que já é grande numa clínica Hospitalar mais aumenta em doentes da clínica particular, principalmente quando sabem que se destina a uma tese de doutoramento.
Em segundo logar os doentes, ao fim de algumas injecções, porque os sintomas se tenham atenuado, mantido ou julgando-se já curados, desaparecem do serviço da clínica, só voltando quando há recidivas, o que portanto inutilizaria o trabalho de metodização.
Finalmente a falta de tempo de que dispúnhamos, dada a necessidade urgente de obtermos a carta de curso para a apresentar num concurso próximo, obrigava-nos a apresenta-la quanto antes.
Eis aqui as razões que nos levaram a mudar de orientação e a pedir aos Ex.nios Clínicos desta cidade os casos que tivessem tratado por auto-he^ moterapia para os observar e registar, juntando-os aos do Serviço da Clínica de Dermatologia e Sifi-ligrafia do Hospital da Misericórdia, sobre a direc-
m
ção do ilustre Prof. Dr. Luís Viegas, e assim formar um quorum de documentos que permitisse justificar o nosso modesto estudo.
Da gentileza com que fui recebido e tratado por todos os Ex.mos Clínicos a quem me dirigi, seja-me permitido destacar, sem desdouro, o meu ilustre presidente de tese, Prof. Dr. Luís Viegas, que além de pôr à minha disposição a sua clínica Hospitalar, quiz valorisar este nosso trabalho com 2 casos da sua clínica particular que são inéditos na história da auto-hemoterapia. Tendo percorrido toda a literatura sobre a auto-hemoterapia, julgo ser o primeiro a apresentar, devido à gentileza do meu ilustre presidente, 2 casos de crises sudorais intensas, como acidentes consecutivos a injecções por auto-hemoterapia.
Foi desta forma que conseguimos reunir as 20 observações clínicas que antecedem as nossas considerações e que em esquema apresentamos de começo.
Percorrendo-as, vê-se quanto é largo mesmo dentro das dermatoses, o emprego da auto-hemoterapia e como os doentes, pelos resultados obtidos, beneficiam deste método tão simples na sua técnica, libertando-os de afecções impressionantes, como a zona e o liquen plano e, duma maneira geral, as doenças pruriginosas.
Emfim o trabalho aí fica; como defeza perante o Dig.m0 Júri que o há-de julgar, eu lembro,
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para as
incorrecções que êle tenha, a nossa pouca experiência/a falta de tempo e o pouco material a consultar, o qual se resume em revistas e jornais de medicina.
Ao terminar o trabalho e antes de entrega-lo à tipografia, resta-nos agradecer a todos aqueles que nos auxiliaram, quer com os seus conselhos clínicos, quer concorrendo com casos para documentação.
Ao meu ilustre presidente de tese, Prof. Dr. Luís Viegas, os agradecimentos muito respeitosos do aluno que reconhece nele o Médico, o Mestre e o Amigo dos seus discípulos, pela honra de presidir à minha tese e pela maneira como a valorisou, permitindo que eu fosse o primeiro, publicando os 2 casos da sua clínica, a registar as crises sudorais como acidentes da auto-hemoterapia, absolutamente inéditas na literatura do assunto.
Ao Ex.mo Sur. Dr. José Aroso, a homenagem sincera duma amizade respeitosa, não só por nos ter fornecido alguns casos clínicos, mas também pela forma carinhosa como desde o nosso 3.° ano nos tem auxiliado e contribuído para formar a nossa educação clínica.
Aos Ex.mos Snrs. Drs. Luís Bastos Viegas e Vilas Boas Neto, distintos assistentes de clínica de Dermatologia e Sifiligrafia do Hospital de Santo António, os meus agradecimentos pela maneira como sempre nos auxiliaram nas nossas investigações

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Finalmente, aos distintos clínicos desta cidade Ex.mos Snrs. Drs. Ortigão Miranda, Santos Silva, Couto Soares, Aureliano Pessegueiro, Paulino Ferreira e Francisco Moreira, a expressão mais profunda do nosso reconhecimento.
A vida académica terminou e, ao entrar na árdua profissão de médico, eu deixo como saudade aos meus contemporâneos, a certeza de que pela vida fora encontrarão sempre em mim o amigo e o colega, como a Deontologia o preceitua.
História da auto-hemoterapia
A auto-hematoterapia ou mais vulgarmente auto-hemoterapia é como definiu Ravaut, um método terapêutico consistindo em injectar debaixo da pele dum doente alguns centímetros cúbicos do seu próprio sangue.
Injectando o sangue global, este método difere assim da auto-seroterapia em que o sangue depois de extraído é primeiro submetido antes de ser injectado a uma série de manipulações tendentes a tirar--lhe os seus elementos figurados e obter unicamente o soro; difere também da hetero-seroterapia, e hetero-hemoterapia em que se aplica sangue dum outro indivíduo quer global quer só o soro. Há ainda modernamente, a chamada hetero-hemoterapia e hetero-seroterapia familial de resultados clínicos brilhantes ou seja a aplicação de sangue dum indivíduo pertencendo à família do doente considerado. É assim, que o Ex.m0 Snr. Prof. Dr. Souza
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Júnior nos relatou, 2 casos de duas crianças, sofrendo há anos de bronquites de repetição tendentes a bronco-pneumonias, dominadas completamente pela injecção de soro de sangue da avó das mesmas crianças.
Mas divergindo praticamente na sua técnica todos estes métodos hemoterápicos, eles teem contudo um mecanismo análogo fazendo hoje parte dos chamados trabalhos sobre proteinoterapia, choque hemoclásico, desensibilização e anafilaxia, capítulos bastante obscuros da medicina contemporânea. Não é nosso intento, como já o dissemos, tratar neste modesto trabalho de todos estes métodos terapêuticos, mas, unicamente da auto-hemote-rapia aplicada nas dermatoses embora no decorrer do texto sejam citados de quando em quando alguns que conhecemos de auto-hemoterapia em geral.

História da hemo-terapia:
Como nasceu a idea da auto-hemoterapia? Qual a sua origem ?
Apesar deste método ser relativamente recente, datando desde 1912, contudo já em 1831, no Jornal de Medicina e Cirurgia prática, um médico italiano M. Mansizio, recomenda como panacea uma operação que constituiu assunto duma nota apresentada à Academia de Medicina. Consistia em apertar um membro superior como para uma sangria vulgar, abrir em seguida uma veia, colocar aí a cânula duma seringa, mas de tal maneira que se
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pudesse fazer correr o sangue para depois o introduzir de novo na torrente circulatória, continuando durante alguns minutos a operação.
M. Mansizio praticou assim em 2 anos, duas mil operações semelhantes e aplicava-as em todos os casos onde as sangrias, as sanguesugas e mais tarde as desenterias tivessem as suas indicações.
Como diz Jolieu, esta operação não era verdadeiramente a auto-hemoterapia, mas sim uma auto--transfusão, mas contudo ela constitui uma maneira rudimentar de praticar a auto-hemoterapia.
Alguns autores teem querido explicar pelo mecanismo da auto-hemoterapia a acção terapêutica das ventosas secas e neste caso a auto-hemoterapia teria uma origem muito mais remota. Com efeito, o hematoma sub-cutáneo produzido pela aplicação das ventosas é para Moutier e Rachet uma auto--hemoterapia sub-cutánea; assim estes autores, em apoio das suas afirmações, fizeram análises comparativas do sangue de 7 doentes tratados por auto--hemoterapia e ventosas secas, encontrando modificações hematológicas perfeitamente paralelas nos dois métodos terapêuticos, consistindo num síndroma hemoclásico e num sindroma leuco-exci-tante, explicando até a acção terapêutica do processo por esta hiperleucocitose manifesta.
Noutro capítulo do texto voltaremos a falar, explicando o que sejam estes 2 síndromas: o hemoclásico e o leuco-excitante.
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Apesar destas tentativas de aplicação do processo faltava alguém que estabelecesse concretamente a sua técnica, as suas contra-indicações e indicações, acidentes, dosagem, etc., e finalmente o seu mecanismo.
Foi Paul Ravaut que pela primeira vez descreveu a sua técnica e indicações num importante artigo, publicado pelos "Anais de Dermatologia e Sifiligrafia», de 1913, subordinado ao título: Ensaio sobre a auto-hemoterapia em algumas dermatoses.
Foi lendo os trabalhos de Mayer e Linser, na Alemanha, que Ravaut pensou, modificando-os, lançar a idea da auto-hemoterapia. Com efeito estes autores tiveram pela primeira vez em 1911 a idea de tratar uma doente atingida de —herpes gestatio-nis—-por injecções de soro de sangue duma mulher grávida sã porque eles pensavam que a evolução normal da gravidez se fazia à custa da neutralização das toxinas por formação de anti-toxinas correspondentes. Injectando na doente soro sanguíneo duma mulher grávida sã, Mayer e Linser esperavam suprir a insuficiência de anti-toxinas e curar assim a herpes gestationis. Mais tarde estes autores substituíram esta hetero-seroterapia por a auto-serotera-pia e estenderam as suas indicações aos prurigos, urticarias e eczemas, sendo então que Ravaut se lembrou de fazer a auto-hemoterapia obtendo os mesmos resultados que os autores alemães e assim
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êle preferia injectar o sangue global porque na fi-brina e nos glóbulos poderiam encontrar-se substâncias ou corpos microbianos especiais cuja reab-sorpção pelo organismo provocasse reacções úteis.
Neste artigo, que diferentes vezes será citado no decorrer do texto, se vê quanto a técnica é simples, os seus raros incidentes, as vantagens sobre a auto-seroterapia e como êle é empregado em numerosas afecções da pele constituindo um processo a escolher nestas dermatoses tão rebeldes a qualquer outro tratamento.
Anteriormente a Ravaut já Sicard e Oultman tinham realizado em larga escala a auto-hemotera-pia, julgando-se até os inventores, motivo porque perante a Sociedade Médica dos Hospitais em 1912 fizeram uma comunicação contra Ramond reclamando para si a prioridade de invenção do método.
Apesar dos trabalhos de Ravaut e de tão brilhantemente ter posto as suas indicações e a sua técnica, documentando com numerosas observações, o método não é aceite por todos os clínicos, dada a ignorância do seu mecanismo e êle assim permanece num estado latente até que Widal e os seus discípulos Abrami e Brissaud com o choque hemoclásico tentam lançar luz sobre o processo, ao mesmo tempo que estendem as suas indicações, ingressando-o como terapêutica nos capítulos das febres tifóides e da asma.
Com esta nova fase e emquanto que as teorias
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se sucedem, para explicar a acção dos métodos he-moterápicos, o processo entra definitivamente na prática dermatológica e na clínica geral, chegando até nós, sendo utilizado sistematicamente na clínica de Dermatologia do Ex.mo Prof. Luís Viegas e por muitos Ex.mos clínicos, como o atestam as observações deste trabalho e tantas outras que nós conhecemos, que sempre recorrem à auto-hemoterapia todas as vezes que lhe aparecem doentes em que possa ser aplicada.
Técnica
Sabendo-se que a auto-hemoterapia consiste em injectar no próprio doente o seu próprio sangue, praticamente o processo é decomponível em duas operações do domínio de todo o clínico: uma colheita de sangue nas veias do cotovelo e uma injecção intramuscular do sangue extraído. Se todos os autores estão perfeitamente de acordo que a colheita do sangue seja feita na veia basílica, já o mesmo não acontece quanto à via de administração do sangue colhido. Assim emquanto que uns preferem (e são o maior número) a injecção intramuscular na massa dos nadegueiros outros utilizam-na no tecido celular sub-cutáneo da parede abdominal, e outros ainda sob pretexto de evitar a coagulação do sangue na seringa, injectam sem mudar de agulha no tecido celular circumvizinho do local da colheita. Ravaut autor do método injecta o sangue na massa dos nadegueiros bem profundamente por
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meio duma longa agulha. Com efeito esta é a melhor via pois esta região pela sua extensa rede de vascularização oferece maior rapidez na absorpção do sangue injectado e portanto mais depressa se produz o efeito terapêutico e desaparece o hematoma formado.
Os partidários da via abdominal defendem-se dizendo que a região nadegueira, tendo uma rede nervosa bastante grande dá logar à formação de dores, podendo produzir névrites. Sob este ponto de vista as injecções de sangue oferecem relativamente aos medicamentos injectáveis, por esta via, uma particularidade muito especial constatada em mim próprio quando das injecções mencionadas na minha auto-observação, nas que praticamos ou que vimos aplicar. Emquanto que os medicamentos injectáveis por via intramuscular, como por exemplo o benzoato de mercúrio, impossibilita o doente de andar, por dores intensas durante algum tempo, com formação de séries de nódulos que se man-teem durante meses, a injecção de sangue é absolutamente indolor quer na ocasião da sua aplicação quer depois e a sua absorpção faz-se tão rapidamente que decorrida uma hora em média, o doente só pelo raciocínio e não pela sensação local porque desapareceu, poderá dizer o lado em que ela foi aplicada.
Além disto, o próprio Ravaut o menciona, quando a injecção é superficial (tecido celular sub-
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-cutâneo) a pele pode permanecer durante muito tempo violácea. Reportando-nos ainda a Ravaut vejamos a maneira como êle efectua estas aplicações.
Instrumentos necessários :
a) Laço em cautchouc (tubo ou sonda mole)
e pinça hemostática para fazer salientar as veias do braço.
b) Seringa de vidro de 20cc.
c) Qrossa agulha de colheita de sangue.
Técnica:
a) Assentar ou deitar o doente.
b) Desinfectar as regiões onde se vai fazer
a colheita de sangue e a injecção.
c) Colher o sangue; levantar o braço e ordenar
ao doente comprimir com algodão a sede da picada.
d) Praticar rapidamente, antes da coagulação,
a injecção em plena nádega.
Esta forma de operar tem alguns inconvenientes, como seja necessitar duma agulha grossa para colheita de sangue e o desinfectar de avanço as duas regiões a operar, motivo porque preferimos com uma pequena variante a adoptada na consulta de Dermatologia do Ex.mo Prof. Dr. Luís Viegas,
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efectuando-se da forma seguinte: Depois de convenientemente esterilizadas duas agulhas, sendo uma fina e curta para a colheita do sangue para a seringa e outra longa para a injecção intramuscular, coloca-se o doente sentado numa cama de exames clínicos, desinfecta-se a região do cotovelo e faz-se a colheita, e emquanto o doente se coloca em decúbito ventral muda-se a agulha da seringa pela outra longa esterilizada anteriormente, e pratica-se a injecção intramuscular.
Como variante desta técnica e aplicável sobretudo aos doentes do sexo feminino cujo pudor é necessário respeitar o mais possível, nós praticamos a injecção intramuscular de sangue pela maneira como efectuamos as injecções intramusculares desde a nossa vida académica. A doente recebe a injecção sentada, bastando pôr a descoberto uma parte da região nadegueira, necessitando para isso apenas de descer um pouco a saia; em qualquer parte à vista dá-se a injecção com a certeza de estar longe do trajecto do nervo sciático, pois este fica situado na parte da nádega que está assente sobre a cadeira.
Indicações e contra-índicações
Se antes dos trabalhos de Widal e seus discípulos a auto-hemoterapia era quasi que exclusivamente empregada nas afecções da pele, depois da descoberta do choque hemoclásico, ela começou a ser indicada em numerosas doenças.
Assim é o próprio Widal e Ramond que a empregam na febre tifóide para provocar a queda definitiva da febre; conhecemos um caso da clínica particular do Ex.mo Snr. Dr. Martins Barboza em que os resultados foram brilhantes. É uma doente que todos os anos fazia uma febre tifóide diagnosticada pela reacção de Widal e que aplicada a auto--hemoterapia a febre cedeu completamente e no ano seguinte não teve novo acesso, como costumava.
Na pneumonia, na tuberculose e em geral em todas as doenças agudas, tem sido empregada com resultados variáveis e como exemplo temos o
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doente da Obs. xi que, ao mesmo tempo que melhora do furúnculo da nuca melhora também da bronquite e estado pulmonar.
É na asma, abstraindo do campo das dermatoses, que a auto-hemoterapia tem sido empregada em larga escala, indicando-a muitos clínicos como terapêutica de brilhantes resultados.
Conhecemos três casos de bronquite asmática em que os resultados foram negativos. O 1.° é um Ex.m0 clínico militar desta cidade, que sofrendo há bastante tempo de acessos de bronquite asmática, tentou a auto-hemoterapia. Com as primeiras injecções sentiu consideráveis melhoras, mas teve de abandonar o método, por não obter a cura.
O 2.° caso é também um doente, A. M. O., 32 anos, empregado comercial, da clínica do Ex.mo Snr. Dr. José Aroso, que sofria há alguns anos de bronquite asmática. Todas as semanas se repetia um acesso de enorme intensidade; iniciando o tratamento pelas injecções de sangue, o doente melhora bastante com as primeiras, não se repetindo os acessos durante um mês, mas voltando apesar de continuar o tratamento.
O 3.° caso é o doente, A. S., que há largos anos sofre de bronquite asmática e em que tentamos o tratamento sem resultado. Tem já 8 injecções sem que sinta quaisquer melhoras. Apesar destes insucessos a auto-hemoterapia deve ser tentada como recurso dum certo valor em todas as
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bronquites asmáticas, tanto mais que a sua aplicação é inteiramente inofensiva.
Em todos os jornais de Medicina se encontram notas clínicas de curas brilhantes de blenorragia por auto-hemoterapia.
Todos os casos que conhecemos são de insucesso e apenas um que está actualmente em tratamento curou com três injecções dum corrimento uretral de origem blenorrágica adquirida há bastantes anos.
Sem dúvida é nas dermatoses que a auto-hemoterapia tem as suas verdadeiras indicações. Mas em que dermatoses?
Ravaut referindo-se às suas indicações divide-as em 5 grupos, a saber:
1.° GRUPO —urticaria, doença de Quincke e pruridos.
2.° ORUPO —
prurigo, strophulus e eczema.
3.° GRUPO —dermites artificiais.
4.° GRUPO—doença de Duhring e dermites da gravidez.
5.° GRUPO—doenças infeciosas cutâneas, herpes récidivante, erisipela récidivante e furúnculos.
Num artigo publicado pelo "Journal Médical Français», Louste, Thibaut et Barbier publicam os resultados obtidos nas dermatoses indicadas por Ravaut e exprimem-se da maneira seguinte:
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1.° —Pruridos simples essenciais —melhora ou cura se não existem lesões de grattage ou insuficiência hepática ou renal; alguns sucessos no prurido anal (Hudelo) e no prurido senil (Louste).
2.°—Prurigos crónicos com liquenificação— bons resultados para Nicolas e alunos; entretanto para Louste, nem os elementos de prurigo efectuados nem as lesões liquenificadas desaparecem.
3.°—Prurigo de Hebra—atenuação passageira.
4.° —Strophulus —é preferível a hetero-hemote-rapia à auto-hemoterapia.
5.° —Eczema —resultados muito variáveis, melhoras, algumas vezes mesmo a cura, mas o agravamento das lesões é sempre possível; os alemães acham mais favorável a auto-seroterapia.
6.° —Dermites artificiais —resultados variáveis.
7.° —Dermatites polimorfas dolorosas de Brocq —bons resultados.
8.° —Herpes récidivante —preferível a auto-seroterapia.
9.° —Zona —desaparição dos fenómenos dolorosos e gerais e atenuação das lesões cutâneas.
10.°—Infecções cutâneas—sucessos na furun-culose, sensíveis melhoras nas hydrosadenites da axila e antrazes, pouca acção sobre as piodermites e foliculites.
11.°—Resultados nulos no liquen plano, psoriasis e dermatites esfoliadoras.
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Por seu lado Schulmann em 23 casos de urticaria, doença de Quincke, prurigo e furunculose, obtém curas completas ou muito melhorados contra 8 casos de resultado nulo.
Apreciando agora os doentes das nossas observações, verificamos que eles são portadores de dermatoses que estão incluídas no quadro clínico de Ravaut, diferindo quanto aos resultados obtidos por Louste, Thibaut et Barbier.

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que sempre as acompanha; contudo é necessário sempre pensar, como já o notaram Widal, Thibaut, Nicolas, Dupasquier, etc., na possibilidade de recidivas, motivo porque embora curados, os doentes devem sempre continuar com o tratamento para consolidar a cura e evitar esta futura eventualidade. Nos 4 doentes apresentados a cura foi rápida, unicamente com duas injecções, e em doses inferiores, não tendo até hoje recidivas, embora já tenha decorrido bastante tempo.
É sem dúvida a furunculose uma das grandes indicações da auto-hemoterapia, estando todos os clínicos de acordo sobre os seus sucessos terapêuticos.
Gayet cura 2 doentes atingidos de furunculose rebelde a muitos tratamentos, com 5 injecções intramusculares de 10cc de sangue dos respectivos indivíduos; os professores Mercklen e Hirschley igualmente curam 5 doentes atingidos de furunculose, com injecções, variando entre 5 e 15" e lembram até que os sucessos da auto-hemoterapia na furunculose e piodermites, parecem demonstrar que estes estados evolucionam à custa duma modificação humoral que constitui o fundo da doença. Mas se a maior parte dos clínicos secundando os trabalhos de Ravaut, concordam que o método é de resultados práticos nas furunculoses, outros porém apresentam numerosos casos de insucesso absoluto e de curas com recidivas. É Dupasquier que num
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artigo publicado pelo Boletim da Sociedade Francesa de Dermatologia e Sifiligrafia—1924, esclarece este assunto estabelecendo as suas verdadeiras indicações e concluindo:
1.°—Que a maior parte dos insucessos na furunculose por auto-hemoterapia resultam de se ignorar que este método unicamente é utilizável nos casos de furunculose verdadeira, isto é, numerosos furúnculos com carnicão e não um isolado que o tratamento apenas beneficia auxiliando as aplicações locais.
2.°—As recidivas dão-se porque curados os sintomas o tratamento não se continua até à consolidação da cura.
Com efeito as nossas, 4 observações confirmam perfeitamente o exposto acima. No doente da Obs. x, portador duma furunculose com numerosos furúnculos (18), a cura foi completa sem cicatriz e nos outros (Obs. xi, xn e xin) o tratamento auxiliou muito eficazmente as aplicações locais de stanoxil e abertura a termocautério como o prova a doente da Obs. xii que era uma diabética.
A auto-hemoterapia na furunculose apresenta ainda vantagens sobre as vacinas e a injecção de leite, por não provocar reacções febris nem dores locais, como acontece nestes últimos processos terapêuticos.
Nos dois casos de zona intercostal a cura foi completa ao contrário dos resultados obtidos por
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Spillmann, que
verificou unicamente a desaparição dos fenómenos dolorosos e quanto às lesões cutâneas, somente a sua atenuação. Nos casos apresentados a cura foi rápida em duas injecções (Obs. viu e ix).
Nos casos de prurigo também os nossos resultados diferem inteiramente dos de Louste que considera o método incapaz de produzir curas principalmente no Prurigo de Hebra podendo unicamente dar melhoras nos prurigos crónicos emquanto que Nicolas e Dupasquier obteem belos resultados como o demonstram com a cura de dois casos de prurigos rebeldes cutâneos, publicados nos Anais de Dermatologia de 1921, tomo n. Os dois casos apresentados (Obs. xvn ejívm) neste trabalho, são de curas completas, desaparecendo às primeiras injecções o prurido e a seguir as lesões liqueni-formes.
Emquanto que todos os clínicos não teem obtido resultados pela auto-hemoterapia no liquen plano e nevrodermite as nossas Obs. m e iv dizendo respeito a um liquen plano típico e a um caso de nevrodermite, demonstram como se pode obter a cura completa nestas duas dermatoses.
Ao lado da furunculose como indicação primária da auto-hemoterapia temos os pruridos quer eles sejam generalizados ou localizados, como o prurido anal e senil. Duma maneira geral a auto--hemoterapia encontra a sua verdadeira indicação
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em todas as afecções pruriginosas como se vê percorrendo as nossas observações de urticaria, prurigo, prurido ano-vulvar, iiquen plano, etc., em que o primeiro elemento da lesão a ser curado é o prurido intenso que acompanhava os doentes mencionados; a auto-hemoterapia como que escolhe para curar primeiramente de entre as lesões polimorfas da dermatose o elemento prurido deixando para injecções subsequentes a cura das restantes lesões.
Contrariamente aos pruridos em que o método é excelente, nos eczemas os resultados são muito variáveis confirmando em absoluto as conclusões de Louste. Este clínico apresenta casos curados, outros melhorados e outros que aumentaram de intensidade.
Nas nossas observações os resultados foram: eczemas melhorados na Obs. xiv, curado na Obs. xv, melhorado na Obs. xvi e no mesmo estado o eczema generalizado da Obs. xx.
Apesar destes resultados, nos eczemas o método é muito falível, obtendo-se curas raras sem recidivas, algumas vezes melhoras e muitas vezes agravação dos sintomas. O elemento prurido dos eczemas é muito beneficiado pelo tratamento, mas quanto às lesões é necessário persistência nas injecções como aconteceu no eczema do couro cabeludo (Obs. xv) que só começou a melhorar depois da 10.a injecção.
Em face do exposto, podemos concluir formu-
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lando as
indicações da autohemoterapia nas dermatoses, por ordem de êxito terapêutico e fundan-do-nos nas observações apresentadas e pelos trabalhos citados, da seguinte forma:
Furunculose.
Prurido anal e pruridos em geral.
Zona.
Urticaria.
Prurigo.
Nevrodermite.
Liquen ruber plano.
Herpes genital.
Eczemas.
A auto-hemoterapia não tem contra-indicações, podendo aplicar-se em qualquer doente, pois os seus acidentes são raros como veremos e as lesões não sendo benificiadas permanecem no mesmo estado, excepto nos eczemas em que pode haver agravamento dos sintomas, mas sempre passageiro.
ai
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IC
u
a
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Posologia
Estabelecidas as indicações da auto-hemotera-pia na Dermatologia e antes de expor algumas considerações sobre o seu mecanismo vejamos qual a sua dosagem, duração do tratamento, relações entre o número de injecções e os efeitos terapêuticos, etc.
Examinando as observações deste trabalho relativamente às quantidades de sangue injectadas, vê-se que não há uniformidade, perfeitamente admissível, pois elas não pertencem todas à mesma clínica; contudo vê-se que a dose mínima empregada foi de 1" no doente da Obs. x, portador duma furunculose, que não sentiu melhoras a não ser com doses mais elevadas e a dose máxima foi de 20" na doente da Obs. xx, com um eczema generalizado, que nada influiu sobre esta dermatose. Qual deverá portanto ser a dose inicial?
Ravaut começa sistematicamente o tratamento
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em todos os seus doentes por uma dose de 8" a 10cc, atingindo o limite máximo de 20" nias faz isto à priori, sem qualquer base scientífica que seja resultado de quaisquer experiências. Este problema liga-se intimamente com o do mecanismo do método e é assim que depois dos trabalhos de Widal, sobre o choque hemoclásico, diferentes clínicos tentam estabelecer a dosagem a empregar, basean-do-se em análises hematológicas.
De facto, admitindo com Widal, que cada injecção de auto-sangue deve produzir uma reacção vásculo-sanguínea, que se traduz praticamente por modificações hematológicas, as doses a empregar devem ser aquelas que produzam o choque terapêutico.
Dos diferentes elementos do síndroma hemoclásico de Widal, os mais importantes como demonstraremos noutro capítulo do nosso trabalho, são a hypotensão e leucopnea, razão porque Mou-tier e Rachet os procuraram em 11 doentes tratados por auto-hemoterapia, encontrando o seguinte:
Em 7 doentes havia leucopnea (amplitude 1200 a 1500 leucócitos) e paralelamente hipotensão principalmente na tensão máxima (baixa de 1CI" a lcm,5, atingindo o máximo de 3cm) e nos restantes 4 doentes haviam modificações inversas ou seja leucocitose e mesmo hiperleucocitose e tensão constante ou hipertensão.
Da mesma forma Schulmann em 32 doentes,
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portadores de afecções cutâneas e tratados por o mesmo método, submetidos sistematicamente a uma l.a injecção de 2CC e analizando o sangue 15 minutos depois encontrou:
Hipotensão e leucopnea ..... 22 vezes
Leucopnea sem hipotensão .... 3 vezes
Hipotensão sem leucopnea .... 2 vezes
Síndroma inverso 1 vez
Nenhuma modificação 2 vezes
As variações da leucopnea e hipotensão concordavam com as obtidas por Moutier e Rachet.
Sabendo portanto que a injecção de auto-san-gue produz hipotensão e leucopnea restava investigar para conhecer qual a dose a injectar se as modificações sanguíneas variavam com a dose introduzida. Schulmann faz a seguinte experiência: Injectou no mesmo indivíduo doses sucessivamente de 5CC, 2CC e 1" e verificou que as modificações hematológicas eram sensivelmente as mesmas, o mesmo sucedendo com uma dose de 20cc. Portanto a dose a começar sob o ponto de vista terapêutico é indiferente ser lcc ou 20cc e digo lcc como limite mínimo, porque Schulmann verificou que o choque produzido por '/z00 era insignificante como se vê pelo quadro por êle publicado.
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Dose injectada
Tensão An
arterial tes
Tensão arterial Depois
Leucócitos
ce
Mx
Mn
Mx
Mn
Antes
Depois
0,5
14 Va
7
13 V3
6
V
a
5640
5620
1
15
7
12 Va
5 V2
5320
4452
2
15
7
13
6
5710
4330
5
14 ?/,
6 V»
12 Va
6
5120
4200
20
15
. 7
13
6
V
a
550
4417
Podemos, portanto, começar o tratamento por qualquer quantidade; contudo entendemos que com o fim de apreciar a sensibilidade do doente, evitar qualquer acidente e habituar o doente a este método, se deve iniciar o tratamento por uma dose de 2CC para subir rapidamente para uma dose mais elevada 5CC e sucessivamente 8CC, 10cc, 12cc, 15cc e 20cc.
Estas injecções que Ravaut efectuava a princípio de 8 em 8 dias são feitas hoje por todos os clínicos incluindo o próprio Ravaut em dias alternados.
Quanto à natureza da dermatose, a intensidade do choque não tem relação com o resultado terapêutico a atingir, como o demonstra a seguinte experiência: num doente atingido de furunculose e tratado por auto-hemoterapia, observa-se exagerada hipotensão e leucopnea e contudo este é um caso de insucesso do método; inversamente um caso de urticaria melhorou rapidamente sem que a hipotensão e a leucopnea fosse notável.
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Quanto à duração do tratamento não há qualquer indício hematológico que faça prever que o processo vai entrar em via de cura; os acidentes começam a ceder em poucas injecções como aconteceu em muitas das nossas observações mas outras vezes (doente da 15.a observação com um eczema do couro cabeludo que começou a melhorar com a 10.a injecção) as melhoras aparecem só muito tarde. Portanto a persistência no tratamento é uma condição essencial para o bom êxito terapêutico.
Nicolas,
Gate e Dupasquier classificam os doentes tratados por auto-hemoterapia em cinco grupos:
1.° —Doentes que melhoram logo com a l.a injecção e neste caso a cura é rápida (à 6.a ou 8.a injecção);
2.° —Melhoras lentas e progressivas interrompidas de quando em quando com recidivas; neste caso a cura só se obtém prolongando o tratamento (20 injecções);
3.° —Doentes muito melhorados no começo do tratamento mas que peoram em seguida, acen-tuando-se a erupção podendo, conduzir até à eri-trodermia; suspender temporariamente o tratamento;
4.0—Dermatoses que peoram com as l.as injecções;
5.°—Dermatoses que se manteem no mesmo estado; só finalizar o tratamento à 7.a injecção.
Sendo as recidivas muito frequentes em certas dermatoses deve-se continuar o tratamento mesmo
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depois das lesões curadas e sendo possível seguir a orientação de Schulmann que após a cura das lesões vai espaçando as injecções até chegar a dar uma em cada mês.
Apesar de proceder assim, num doente que constituiu assunto duma comunicação à Sociedade Médica dos Hospitais, portador dum edema angio--neurotico é necessário desde os cinco anos que se efectuou a cura por auto-hemoterapia, efectuar algumas injecções de auto-sangue, de 6 em 6 meses, sem as quais haverá recidivas.
Conclui-se portanto pelo exposto, que na auto--hemoterapia, é necessário persistência no tratamento e continuação após a cura para evitar futuras recidivas.
Acidentes da auto-hemoterapia
A auto-hemoterapia é um método terapêutico que além de apresentar numerosas indicações, com resultados brilhantes, tem ainda a vantagem de não oferecer acidentes, quer gerais, quer locais, exceptuando casos isolados, mas sempre duma diminuta gravidade.
De facto, emquanto que nas aplicações das vacinas, injecção de leite, etc., se obteem dores locais intensas e altas temperaturas, na auto-hemoterapia nada disto sucede e o doente vê desaparecer as suas lesões sem ser à custa de qualquer sofrimento. É interessante mesmo registar, que lendo toda a bibliografia do assunto, todos os autores ao mesmo tempo que notam os efeitos ou insucessos terapêuticos, fazem salientar o facto de não encontrarem acidentes com as injecções de auto-sangue.
Ravaut autor do método, considera-o perfeitamente inofensivo, nunca tendo encontrado quais-
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quer acidentes de gravidade. Com este intuito nas nossas 20 observações tivemos o cuidado de investigar sempre nos doentes, qualquer acidente, por pequeno que fosse e assim como se pode verificar, exceptuando os doentes das Obs. i e ií, que tiveram um acidente de que falaremos mais adeante, nenhum dos restantes acusou qualquer reacção geral ou local.
É a Moutier e Rachet que se deve a única comunicação escrita sobre acidentes de auto-hemote-rapia, publicada na "Presse Médical,; —1923, baseada nos resultados obtidos em 400 injecções de auto-sangue, efectuadas num ano, em 70 doentes portadores de diferentes dermatoses.
Auxiliando-nos deste importante artigo e dos resultados obtidos nos nossos doentes, vamos expor algumas considerações sobre este assunto, estabelecendo de princípio que os acidentes são sempre de pouca importância e de pequena duração.
Quanto à sede podem dividir-se os acidentes em:
Acidentes
locais
gerais
imediatos
mediatos
a) Diferentes daqueles que
se procura combater.
b) Análogos aos que se procuram
combater com a auto-hemoterapia.
79
Acidentes locais:
Imediatamente à injecção o doente sente uma sensação de peso, de dificuldade nos movimentos ao nível da nádega mas que depressa desaparece.
Se a injecção é feita nos músculos nadegueiros o hematoma formado não se conhecendo superficialmente é rapidamente absorvido e o doente retoma as suas ocupações sem qualquer vestígio do tratamento. No caso da injecção ser feita no tecido celular da parede abdominal ou como o faz Schul-mann no tecido circumvizinho do local da picada, no cotovelo, forma-se uma equimose mais ou menos duradoura dependendo da quantidade de sangue injectado. Em todos os doentes apresentados neste trabalho em que as injecções foram intramusculares não se observou qualquer acidente local.
flciflenfes gerais:
1.°—Acidentes imediatos à injecção.
Verdadeiramente esta divisão não devia existir pois os acidentes observados imediatamente à injecção não são propriamente provocados pela auto-. -hemoterapia mas por circunstâncias extranhas a este método visto que se teem manifestado com qualquer outra injecção que não seja de auto-sangue.
Assim Moutier e Rachet tiveram 3 doentes, 3 grandes emotivos que durante a injecção apresen-
so
taram um estado sincopai completo, com perda do conhecimento, frequência e pequenez do pulso e pausa respiratória longa. Todas cederam expon-tâneamente e num dos doentes seguiu-se um sono de algumas horas. Contudo estas crises sincopais, e isto prova a sua origem emotiva, deram-se antes que Moutier e Rachet tivessem efectuado a injecção intramuscular do sangue e unicamente tinham feito a colheita na veia do cotovelo.
Na Obs. ix deste trabalho, relativa a uma doente histérica, com uma zona intercostal, sucedeu um incidente similhante que vem mencionado na mesma observação.
Imediatamente depois de fazer a colheita do sangue para a injecção o doente tem uma crise histérica que fez suspender o tratamento. Estes casos são muito frequentes e como exemplo nítido Dufour na Sociedade Médica dos Hospitais—1914 apresenta um caso de "verdadeiro choque dos mais impressionantes, consecutivo a um acto ou um gesto terapêutico». Tratava-se dum doente que teve uma crise de epilepsia antes que uma única gota de 606 tivesse penetrado na veia.
Portanto os acidentes mencionados não podem ser considerados como exclusivos da auto-hemo-terapia.
2.°—Acidentes mediatos à injecção.
Estes acidentes que vão ser descritos é que são
81
propriamente devidos à aplicação do método e emquanto que uns lembram as dermatoses que se pretendem curar, constituindo por assim dizer uma intensificação dos sintomas, outros são perfeitamente extranhos ao síndroma em tratamento.
a) Incidentes diferentes das lesões em tratamento.
Os mais precoces começam geralmente duas horas depois da injecção e são constituídos por sonolência, fadiga intelectual, sensação de mal estar, mas no fim da tarde tudo voltou ao seu estado normal. Outras vezes aparecem sob a forma de pequenas reacções febris (37°,5 o máximo 38°) que podem durar dois dias a que se associam raras vezes artralgias, dores lombares, cefalêas, vómitos e em 2 casos de Moutier e Rachet eritêmas polimorfos nos ante-braços, mãos e coxas.
Estes eritêmas não eram devidos a qualquer infecção proveniente da colheita do sangue, visto que apareceram no ante-braço oposto ao da picadura para a colheita.
Dos 20 doentes apresentados neste trabalho os acidentes foram nulos em 18, não tendo qualquer reacção geral ou qualquer sintoma mencionado acima; os 2 restantes apresentaram um mesmo acidente que pela sua particularidade merece um estudo especial.
São os doentes das Obs. i e II respectivamente
o
82
portadores duma herpes genital e duma nevroder-mite com poussées de prurido, pertencendo à clínica particular do meu ilustre professor Dr. Luís Viegas.
Depois de serem aplicadas diferentes injecções de auto-sangue com excelentes resultados terapêuticos sem que haja sucedido qualquer acidente, quando da repetição da dose de 10", ambos os doentes (notamos especialmente este facto) passadas 17 horas da injecção, isto é, durante a noite, acordaram com uma intensa crise sudoral que durou meia hora, finda a qual adormeceram com um notável bem estar. Esta crise foi única apesar de se terem aplicado mais injecções de 10cc.
Estes 2 casos, permitem portanto incluir nos acidentes da auto-hemoterapia, um novo acidente a crise sudoral intensa após bastantes horas da injecção.
E dizemos novo acidente porque nem Moutier e Rachet, Nicolas, Ravaut, Dupasquier nem qualquer outro clínico encontraram acidente semelhante, perfeitamente demonstrado pois apareceu em 2 doentes.
b) Acidentes análogos aos sintomas que se pretendem curar.
Estes acidentes são sempre constituídos pela intensificação do processo após as injecções de auto-sangue quer passadas algumas horas quer ai-
83
guns
dias; este agravamento das lesões dá-se geralmente, e é importante notar este facto, não consequentemente à l.a injecção mas à 4.a ou 5.a. Mou-tier e Rachet apresenta três doentes portadores de eczema palpebral e urticaria que passadas 3 horas da 3.a ou 4a injecção tiveram uma generalização do processo.
Nos doentes por nós apresentados não notamos qualquer acidente fazendo parte dos acima mencionados.
Podemos portanto concluir que a auto-hemo-terapia é um método que na maior parte das vezes não apresenta acidentes e se os apresenta são sempre de pouca duração e de pequena intensidade.
Patogenia da auto-hemoterapia e suas relações com os métodos hemoterápicos
Ao mesmo tempo que se efectuavam estudos para se estabelecer as indicações e a prática da auto-hemoterapia, investigações numerosas se praticavam para conhecer a sua patogenia não se obtendo até hoje resultados positivos.
Assim o seu mecanismo permanece ainda no campo das hipóteses embora o número de experiências e exames laboratoriais seja muito elevado mas sem conclusões nítidas.
Tendo orientado este nosso estudo unicamente no campo da prática dermatológica, neste capítulo do trabalho desejamos somente em breves palavras apresentar as diferentes teorias que sobre os métodos hemoterápicos se teem discutido e que tentam explicar este obscuro problema da medicina contemporânea.
Já Ravaut no artigo que temos citado por diferentes vezes, referindo-se especialmente à patogenia
86
da auto-hemoterapia,
lança a hipótese deste método actuar por estimulação e modificação das reacções orgânicas.
Igualmente Fouquet em 1914, num artigo publicado pela "Presse Médicale», de 15 de Julho de 1914, sobre a "auto-hemoterapia nas afecções cutâneas», diz que tanto a auto-seroterapia como a auto-hemoterapia de Ravaut actuam porque "a introdução de soro ou sangue dá logar à formação de reacções defensivas que provocam a produção e põem em circulação elementos fagocitários ou outros que o organismo seria impotente por si só de produzir».
Estas hipóteses sem argumentos de valor e sem experiências demonstrativas são completamente abandonadas por todos os clínicos.
Widal e os seus discípulos Abrami e Brissaud com os trabalhos sobre o choque hemoclásico dão uma nova fase ao problema, baseada nas inúmeras experiências por eles praticadas.
O que é o choque hemoclásico de Widal?
É uma crise vásculo-sanguínea que se pode observar após a injecção do soro do sangue ou do sangue global. Ela produz-se também com a injecção das albuminas heterogéneas como a peptona, branco do ôvo ou proteínas microbianas. Além de perturbações gerais que algumas vezes atingem uma certa gravidade, como acontece com a injecção de leite ou peptona, esta crise traduz-se igualmente
87
por modificações hematimétricas e oscilométricas que a seguir menciono:
Hipotensão arterial.
Perturbações da coagulação.
Leucopnea.
Inversão de fórmula leucocitária.
Rarefação das plaquetas.
Aspecto rutilante do sangue venoso.
Variações bruscas do índice refratométrico do sangue.
O choque hemoclásico é diferente do choque anafilatico porque este dá-se com uma dose pequena e numa 2.a injecção emquanto que o choque hemoclásico dá-se de início mesmo com alta dose de proteína injectada.
De facto como já vimos noutra parte deste trabalho após as injecções de auto-sangue observa-se a crise hemoclásica com as suas modificações hematimétricas o que a fez considerar por muitos clínicos como causa terapêutica da auto-hemoterapia.
Ora sabendo que as proteínas heterogéneas também produzem esta crise, como explicar a acção da injecção de sangue?
Dar-se-hao modificações no sangue durante a injecção, no sentido de se formarem proteínas heterogéneas?
De facto, Mino de colaboração com Garlasco efectuou experiências neste sentido das quais resultaram conclusões importantes.
Injectou 5" de sangue do. mesmo indivíduo ou
88
dum indivíduo do mesmo grupo sanguíneo compatível e dum outro indivíduo de sangue incompatível; a injecção foi feita com agulha e seringa parafinadas para evitar as mínimas alterações no sentido da coagulação e o sangue foi recolhido numa solução anti-coagulante (citrato de soda). A injecção de sangue do mesmo indivíduo não provocou crise hemoclásica nem acidentes imediatos ou tardios, pelo contrário a injecção de sangue do indivíduo incompatível provocou a crise hemoclásica. E assim Mino conclui que a auto-hemoterapia actua por proteinoterapia isto é as proteínas heterogéneas não existindo no sangue formam-se durante a estada do sangue na seringa em virtude do elevado poder tromboplástico das paredes do vidro e do metal, dando-se a coagulação.
Portanto os métodos hemoterápicos constituem uma variante da proteinoterapia; é pela introdução de proteínas não específicas que provocando o choque de Widal se dão os efeitos terapêuticos.
Admitindo esta teoria, como explicar os numerosos casos (alguns citados neste trabalho) de curas de dermatoses por auto-hemoterapia sem existir choque hemoclásico?
Schulmann responde dizendo que talvez a crise hemoclásica não seja a determinante da cura mas um indicador, podendo faltar, de reacções físico-quí-micas do meio humoral, rutura do equilíbrio dos coloidais para Widal.
89
Igualmente admitindo com Moutier e Rachet que as ventosas secas actuam por auto-hemoterapia como se explica a formação de proteínas heterogéneas?
De facto Moutier, Rachet e Schulmann encontraram modificações do sangue após a aplicação das ventosas secas no sentido da crise hemoclásica e até nalguns doentes um sindrôma leuco-excitante com hiperleucocitose. Estes autores aconselham até o uso das ventosas sêcas para substituir a auto-hemoterapia no caso dos doentes não terem veias próprias para a colheita do sangue. Desta forma o hematoma sub-cutáneo não estando em contacto com o vidro ou metal duma seringa não se poderiam formar proteínas heterogéneas.
Tinet e Santenoise querendo explicar as curas sem choque hemoclásico admitem a hipótese de que a seguir ao choque há uma fase de inexcitabi-lidade vago-simpática que protege o organismo contra um choque novo.
Muito modernamente tem-se atribuído os efeitos terapêuticos da auto-hemoterapia à acção das glândulas de secreção interna e do sistema vago--simpático.
A principal razão que leva muitos autores a preferirem a auto-seroterapia à auto-hemoterapia é justamente o facto de naquela existirem maior número de proteínas heterogéneas, por o sangue estar fora dos vasos mais espaço de tempo.
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Apesar disto Moutier e Schulmann encontraram resultados terapêuticos perfeitamente paralelos nos dois métodos, quanto às modificações sanguíneas e sindrôma hemoclásico.
A auto-hemoterapia apresenta ainda as vantagens sobre a auto-seroterapia de ser de uma técnica muito mais simples e evitar as manipulações numerosas da auto-seroterapia, causas de infecções. Quanto aos outros métodos hemoterápicos como a hetero-hemoterapia e hetero-seroterapia, teem sido pouco empregados nas dermatoses.
Do exposto se conclui que as numerosas teorias tendentes a explicar a patogenia do método, não o fazem duma maneira nítida continuando este problema sem resolução, embora consideremos como teoria mais fundamentada em experiências clínicas e laboratoriais a de choque hemoclásico de Widal como forma da proteinoterapia.
CONCLUSÕES
i
A auto-hemoterapia
é
um método terapêutico valioso, em numerosas dermatoses, sobretudo nas afecções pruriginosas e furunculoses.
II
A persistência no tratamento mesmo após a cura é uma causa essencial para se obterem bons resultados, motivo porque se deve elevar o número de injecções para evitar futuras recidivas.
III
A auto-hemoterapia apresenta sobre os métodos congéneres a vantagem da simplicidade da sua técnica.
92
*
IV
A auto-hemoterapia na quasi totafidade dos
casos não tem acidentes e quando os tem são de pouca importância e de pequena duração.
V
A patogenia da auto-hemoterapia é ainda desconhecida actuando, para a maior parte dos clínicos por o mecanismo da proteinoterapia.
Visto Pode Imprlmlr-se
£uí$ tyieyaô- QattoA £itna
Presidente. Director interino.
*-
BIBLIOGRAFIA
DAEIEE —
Précis
de Dermatologie — Paris, 1918.
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et
de Syphiligraphie —1912 a 1924.
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Paris Médical— 1912 a 1924.
The Journal of the
American Médical Association — 1912 a 1924.
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Bulletins et Mémoires de la Société Médicale des Hos-pitaux de Paris — 1912 a 1924.
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logie — 1923.

Esse artigo tem propósitos apenas informativos. NÃO FORNECE ORIENTAÇÕES MÉDICAS. quanto o autor e divulgador não se responsabilizam por quaisquer conseqüências possíveis oriundas de qualquer tratamento, procedimento, exercício, modificação na dieta, ação ou aplicação de medicamento que resultem da leitura ou observância das informações aqui contidas. A publicação dessas informações não constitui a prática da medicina, e não substituiu o conselho do seu médico ou outro profissional de saúde. Antes de adotar qualquer tipo de tratamento, o leitor deve procurar atendimento médico ou outro profissional da saúde.

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